Várias pessoas caíram no mesmo golpe online: como organizar as informações para a investigação?

Resumo rápido

  • Quando várias pessoas caem no mesmo golpe online, organizar as informações de forma padronizada pode facilitar a identificação de padrões, contas utilizadas, valores e responsáveis envolvidos.
  • É recomendável reunir comprovantes de pagamento, conversas, números de telefone, perfis, e-mails, chaves Pix, datas, horários e boletins de ocorrência de cada vítima.
  • A consolidação desses dados pode auxiliar a investigação e a adoção de medidas destinadas à identificação dos envolvidos e à recuperação de valores, quando possível.
Várias pessoas caíram no mesmo golpe online: como organizar as informações para a investigação?

Publicado em · Por · OAB/MG 168.999

Golpes online costumam ser repetidos em escala. O mesmo número de telefone, perfil, domínio, anúncio, conta bancária ou roteiro pode ser utilizado contra diversas pessoas em poucos dias.

Quando várias pessoas caem no mesmo golpe online, organizar as informações pode ajudar a revelar conexões que não seriam percebidas ao analisar cada ocorrência isoladamente.

Isso não significa que todas as vítimas devam simplesmente juntar capturas de tela em um único grupo.

Uma organização eficiente precisa preservar os relatos individuais, os arquivos originais, as datas e os identificadores de cada ocorrência, ao mesmo tempo em que cria uma visão comparativa dos elementos que se repetem.

Por que reunir as informações pode ajudar?

Um único golpe pode parecer inicialmente um fato isolado.

Quando diferentes ocorrências são comparadas, podem surgir padrões como:

  • mesmo número de telefone;
  • mesmo perfil;
  • mesma chave Pix;
  • mesma conta de destino;
  • mesmo domínio;
  • mesmo endereço de e-mail;
  • mesmo texto de abordagem;
  • mesma falsa empresa;
  • mesma sequência de pagamentos.

A repetição pode ajudar a demonstrar que diferentes fatos aparentemente independentes fazem parte de uma mesma dinâmica fraudulenta.

Cada vítima deve preservar suas próprias provas?

Sim.

O dossiê coletivo não deve substituir os arquivos individuais.

Cada pessoa deve manter, quando existirem:

  • conversa completa;
  • prints;
  • áudios;
  • e-mails;
  • comprovantes de pagamento;
  • extratos;
  • anúncio visualizado;
  • endereço do site;
  • perfil utilizado;
  • protocolos;
  • boletim de ocorrência.

O ideal é manter os arquivos originais e trabalhar com cópias para organização e comparação.

É melhor fazer uma pasta para cada vítima?

Sim.

Uma estrutura simples pode facilitar muito a análise.

Cada vítima pode receber uma identificação neutra, por exemplo:

  • Vítima 01;
  • Vítima 02;
  • Vítima 03;
  • Vítima 04.

Dentro de cada pasta podem existir subpastas para conversas, pagamentos, documentos, protocolos e outros arquivos.

A identificação neutra ajuda a organizar o material sem expor desnecessariamente nomes completos em todos os documentos de trabalho.

Que informações devem entrar em uma tabela comparativa?

Uma planilha pode funcionar como índice das ocorrências.

Podem existir campos como:

  • identificação da vítima;
  • data do primeiro contato;
  • plataforma utilizada;
  • nome do perfil;
  • URL;
  • telefone;
  • e-mail;
  • produto ou serviço anunciado;
  • valor solicitado;
  • valor efetivamente pago;
  • forma de pagamento;
  • beneficiário;
  • instituição financeira;
  • chave Pix, quando houver;
  • identificador da transação, quando disponível;
  • data e horário do pagamento;
  • número do boletim de ocorrência;
  • protocolos bancários ou da plataforma.

O objetivo é permitir comparação sem substituir a prova original correspondente.

As datas e horários devem ser registrados de forma padronizada?

Sim.

Uma cronologia consistente pode revelar que diversos golpes ocorreram em sequência.

É recomendável registrar:

  • data do primeiro contato;
  • horário da mensagem;
  • momento do pagamento;
  • horário de eventual bloqueio;
  • data da denúncia à plataforma;
  • data da contestação bancária;
  • data do boletim de ocorrência.

Quando possível, também deve ser indicado o fuso horário utilizado pela plataforma ou pelo comprovante.

É importante preservar o número da transação?

Sim.

Não registre apenas o valor transferido.

Comprovantes podem conter informações capazes de individualizar a operação, como:

  • data;
  • horário;
  • instituição pagadora;
  • instituição recebedora;
  • nome do beneficiário;
  • CPF ou CNPJ parcialmente exibido, quando disponível;
  • identificador da transação;
  • valor.

Essas informações podem permitir que a autoridade relacione diversos pagamentos ao mesmo destino.

Devemos juntar todos os prints em um único arquivo?

Uma cópia organizada pode ser criada para facilitar a leitura, mas os arquivos originais devem ser preservados separadamente.

Ao elaborar um relatório, é recomendável indicar claramente de qual vítima e de qual arquivo cada imagem foi extraída.

Evite:

  • editar o conteúdo original;
  • apagar partes relevantes;
  • misturar conversas de pessoas diferentes sem identificação;
  • alterar a ordem cronológica;
  • sobrepor textos sobre a captura original.

Uma versão anotada pode existir como material auxiliar, desde que não substitua o arquivo original.

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Quais elementos repetidos merecem destaque?

A comparação deve buscar indicadores objetivos.

Entre eles:

  • mesmo número telefônico;
  • mesmo usuário em aplicativo;
  • mesma fotografia de perfil;
  • mesma conta bancária;
  • mesma chave de pagamento;
  • mesmo domínio;
  • mesma página de checkout;
  • mesmo e-mail;
  • mesmo nome utilizado pelo suposto atendente;
  • mesmo roteiro de abordagem.

Também é relevante registrar quando um elemento é semelhante, mas não exatamente igual.

Perfis diferentes podem fazer parte do mesmo golpe?

Podem, mas isso não deve ser presumido sem provas.

Fraudadores podem utilizar múltiplos perfis, números ou contas.

Por outro lado, semelhanças superficiais também podem ocorrer entre golpes independentes.

A correlação pode se tornar mais consistente quando existem vários elementos comuns, como:

  • mesmo destino financeiro;
  • mesmo domínio;
  • mesmos arquivos;
  • mesma infraestrutura;
  • mesmos contatos;
  • mesma sequência operacional.

Cada vítima deve escrever o próprio relato?

Preferencialmente, sim.

Um relatório coletivo pode apresentar uma síntese geral, mas cada vítima deve preservar sua própria narrativa sobre aquilo que viveu.

Isso ajuda a evitar que um relato seja involuntariamente adaptado ao relato de outra pessoa.

É recomendável registrar individualmente:

  • como ocorreu o primeiro contato;
  • o que foi prometido;
  • quais mensagens foram recebidas;
  • por que a vítima realizou o pagamento;
  • quando percebeu o golpe;
  • quais providências tomou depois.

A síntese comparativa deve ser construída posteriormente a partir desses relatos independentes.

É ruim as vítimas combinarem uma única versão dos fatos?

Sim.

A organização coletiva não deve produzir artificialmente uma narrativa uniforme.

Cada pessoa pode ter recebido mensagens diferentes, conversado com outro perfil ou realizado pagamentos em momentos distintos.

Essas diferenças também podem ser importantes para a investigação.

Por isso, não é recomendável “padronizar” depoimentos para que todos contem exatamente a mesma história.

É preciso guardar o anúncio que originou o golpe?

Sim, quando disponível.

O anúncio pode permitir a identificação de:

  • perfil anunciante;
  • página de destino;
  • produto anunciado;
  • imagem utilizada;
  • texto;
  • empresa falsamente representada;
  • eventuais códigos ou identificadores visíveis.

Também é recomendável guardar o endereço da página e não apenas uma imagem recortada do anúncio.

Domínios e sites devem ser registrados?

Sim.

Sites fraudulentos podem ser retirados rapidamente do ar.

Preserve:

  • endereço completo;
  • página inicial;
  • página de pagamento;
  • dados de contato;
  • termos apresentados;
  • nomes empresariais utilizados;
  • outros elementos visíveis.

Informações técnicas adicionais podem ser buscadas pela investigação conforme a necessidade.

É útil fazer um mapa do fluxo do dinheiro?

Sim, desde que baseado somente nos documentos disponíveis.

Uma tabela pode demonstrar que:

  • Vítima 01 pagou para a conta A;
  • Vítima 02 pagou para a conta A;
  • Vítima 03 pagou para a conta B;
  • Vítima 04 recebeu solicitação envolvendo a mesma chave utilizada pela Vítima 01.

Essa representação facilita a identificação de destinos financeiros recorrentes.

Não devem ser incluídas conclusões sobre quem controla determinada conta quando essa informação ainda não estiver comprovada.

As vítimas devem compartilhar documentos pessoais em um grupo?

Não é necessário expor documentos completos de todos os participantes em grupos de mensagens.

A organização deve limitar o compartilhamento ao necessário.

Dados como:

  • CPF completo;
  • documentos de identidade;
  • endereço residencial;
  • senhas;
  • dados bancários não relacionados ao golpe;

não devem circular indiscriminadamente apenas porque existe investigação comum.

Documentos sensíveis podem ser entregues diretamente à autoridade ou ao profissional responsável pela organização do caso.

Cada vítima precisa registrar boletim de ocorrência?

A forma de registro pode variar conforme a investigação e a orientação da autoridade competente.

Em geral, é importante que cada prejuízo e cada vítima possam ser individualizados.

Um relatório conjunto pode ajudar a revelar o padrão, mas não deve ser tratado automaticamente como substituto de todos os registros individuais que venham a ser necessários.

Os boletins já existentes devem ser relacionados entre si no dossiê.

E se diferentes vítimas estiverem em estados diferentes?

Isso não impede a organização das informações.

É possível montar uma visão conjunta indicando:

  • local da vítima;
  • data do fato;
  • boletim correspondente;
  • unidade policial envolvida;
  • prejuízo;
  • elementos comuns.

A definição de competência e eventual reunião das investigações cabe às autoridades conforme os fatos e as regras processuais aplicáveis.

Quando os registros das plataformas podem ser importantes?

Se o golpe envolveu redes sociais, e-mail, aplicativos ou sites, registros mantidos pelos provedores podem ajudar a identificar acessos e responsáveis.

Por isso, datas exatas, URLs, perfis e horários devem ser preservados.

O Marco Civil estabelece regras de guarda e permite mecanismos de preservação e requisição de registros em situações específicas.

A identificação temporal precisa pode ser especialmente importante porque alguns registros possuem prazo limitado de conservação.

Como montar um dossiê para entregar à investigação?

Uma estrutura possível é:

  1. resumo executivo do golpe;
  2. lista individualizada das vítimas;
  3. linha do tempo geral;
  4. tabela comparativa;
  5. lista de telefones, perfis, e-mails e domínios;
  6. quadro de contas e pagamentos;
  7. relação dos boletins de ocorrência;
  8. índice das provas;
  9. pastas individualizadas com os documentos originais.

O relatório deve distinguir claramente fatos comprovados, informações relatadas por vítimas e hipóteses que ainda dependem de investigação.

Perguntas frequentes

Várias vítimas devem criar um único grupo de WhatsApp?

O grupo pode facilitar a comunicação, mas não deve ser o único repositório de provas nem ser utilizado para circulação indiscriminada de documentos pessoais.

É melhor fazer um único boletim de ocorrência?

Isso depende da orientação da autoridade e das características do caso. O importante é que cada vítima, prejuízo e operação possam ser individualizados.

Posso juntar todos os prints em um PDF?

Pode existir um PDF auxiliar, mas os arquivos originais e a identificação de sua origem devem ser preservados separadamente.

Se várias pessoas pagaram para a mesma conta, isso é importante?

Sim. A repetição do mesmo destino financeiro pode ser um dado relevante para a investigação.

Devemos escrever todos o mesmo relato?

Não. Cada vítima deve preservar sua narrativa individual. A comparação deve ser realizada depois, sem alterar as versões originais.

Vale guardar anúncios e sites mesmo depois de saírem do ar?

Sim. Conteúdos digitais podem desaparecer rapidamente e sua preservação anterior pode ser relevante.

É importante organizar tudo cronologicamente?

Sim. Datas e horários permitem relacionar comunicações, pagamentos, acessos e outros eventos de vítimas diferentes.

Conclusão

Quando várias pessoas são vítimas do mesmo golpe online, organizar as informações pode ajudar a revelar padrões, contas, perfis, telefones e estruturas que se repetem.

A organização coletiva, entretanto, não deve destruir a individualidade das provas e dos relatos.

Cada vítima deve preservar seus arquivos originais, pagamentos, conversas e documentos, enquanto um relatório central compara apenas os elementos objetivos em comum.

Uma boa linha do tempo, uma tabela padronizada e um índice de provas podem tornar o material mais compreensível para a investigação.

Este conteúdo possui finalidade informativa e não substitui a análise dos documentos, das ocorrências individuais e da estratégia adequada perante as autoridades responsáveis.

Foto de Rafael Favaretto Araújo Abreu, advogado OAB/MG 168.999

Conteúdo publicado em: 15/10/2026

Autoria técnica: Rafael Favaretto Araújo Abreu, advogado – OAB/MG 168.999

Revisão jurídica: Equipe jurídica do Favaretto Araújo Abreu Advogados