Publicado em · Por Rafael Favaretto Araújo Abreu · OAB/MG 168.999
Quando um cliente exige um programa de integridade antes de contratar uma empresa, a primeira providência não deve ser baixar um código de ética genérico ou criar documentos apenas para atender ao cadastro do fornecedor.
Um programa de integridade precisa refletir o tamanho da empresa, sua atividade, seus riscos, a forma como contrata terceiros e o tipo de relação comercial que mantém. A exigência feita pelo cliente pode ser contratual, decorrer de política interna de fornecedores ou, em determinadas contratações públicas, estar relacionada a regras legais específicas.
O ponto de partida é entender exatamente o que o cliente espera e comparar essa exigência com os controles que a empresa já possui.
A exigência do cliente deve ser compreendida antes da criação dos documentos
Nem todo cliente utiliza a expressão programa de integridade com o mesmo significado. Algumas empresas exigem apenas políticas básicas de ética e anticorrupção. Outras submetem fornecedores a questionários extensos de compliance e esperam evidências de aplicação prática.
Antes de desenvolver o programa de integridade, é recomendável identificar:
- quais documentos foram solicitados;
- se existe questionário de homologação;
- se há requisitos mínimos previstos em contrato;
- se o cliente exige canal de denúncias;
- se solicita treinamentos ou evidências de treinamentos;
- se haverá auditoria do fornecedor;
- se existe certificação específica exigida.
Essa análise evita a criação de um sistema incompatível com a necessidade comercial real.
O programa de integridade deve ser proporcional aos riscos da empresa
O Decreto nº 11.129/2022 utiliza como referência a ideia de que o programa de integridade deve ser estruturado, aplicado e atualizado considerando as características e os riscos atuais de cada pessoa jurídica.
Isso significa que uma pequena empresa prestadora de serviços não precisa copiar integralmente a estrutura de compliance de uma companhia multinacional.
O programa de integridade precisa ser efetivo dentro da realidade da organização.
O mapeamento de riscos orienta as primeiras políticas
Antes de produzir documentos, a empresa deve identificar os pontos em que existe maior exposição a irregularidades.
O diagnóstico pode considerar:
- contato com agentes públicos;
- contratação de fornecedores;
- representantes comerciais;
- pagamentos e reembolsos;
- brindes e hospitalidades;
- conflitos de interesses;
- tratamento de dados pessoais;
- processos de compras;
- contratação de intermediários.
O resultado dessa análise define quais componentes do programa de integridade merecem maior atenção.
O comprometimento da direção precisa aparecer na prática
Um programa de integridade perde credibilidade quando existe apenas como conjunto de documentos preparados para clientes.
A administração deve demonstrar que as regras também se aplicam aos gestores e proprietários.
Isso pode ocorrer por meio da aprovação das políticas, comunicação interna, participação nos treinamentos e aplicação uniforme dos procedimentos.
O código de ética estabelece as regras gerais de conduta
O código de ética normalmente funciona como documento central do programa de integridade.
Ele pode disciplinar temas como:
- corrupção e fraude;
- conflitos de interesses;
- relacionamento com clientes e fornecedores;
- brindes e hospitalidades;
- confidencialidade;
- proteção de informações;
- assédio e discriminação;
- comunicação de irregularidades.
O conteúdo deve corresponder à realidade da empresa e utilizar linguagem compreensível para as pessoas que precisarão aplicá-lo.
O canal de denúncias precisa ser confiável e funcional
Um programa de integridade pode prever canal para comunicação de fraudes, conflitos de interesses, assédio e outras violações.
A CGU destaca elementos como confidencialidade, possibilidade de anonimato, proteção contra retaliação e existência de procedimentos para apuração.
Não basta disponibilizar um endereço de e-mail se ninguém souber quem recebe as denúncias, como elas serão analisadas ou quais garantias existem para quem reporta uma irregularidade.
A relação com fornecedores também integra o programa
Terceiros podem representar parcela relevante dos riscos de uma organização.
O programa de integridade pode prever diligências proporcionais antes da contratação de fornecedores, representantes e parceiros mais sensíveis.
A profundidade da análise depende do risco. Nem todo pequeno fornecedor precisa passar pelo mesmo procedimento aplicado a um intermediário que representa a empresa perante órgãos públicos.
Treinamento transforma política escrita em prática empresarial
As pessoas que executam atividades sujeitas a risco precisam compreender o programa de integridade.
Treinamentos podem ser diferenciados conforme a função. Equipes de compras podem receber orientação específica sobre fornecedores e conflito de interesses, enquanto equipes comerciais podem precisar de regras mais detalhadas sobre brindes, comissões e relacionamento com clientes.
Também é importante registrar participantes, datas e conteúdo ministrado.
A empresa deve produzir evidências da aplicação do programa
Quando um cliente exige programa de integridade, documentos isolados podem não ser suficientes.
Uma empresa pode precisar demonstrar:
- políticas aprovadas;
- treinamentos realizados;
- análises de terceiros;
- funcionamento do canal de denúncias;
- registros de monitoramento;
- medidas corretivas adotadas.
Essas evidências demonstram que o programa de integridade possui aplicação concreta.
O programa precisa ser monitorado e atualizado
Um programa de integridade não termina quando os documentos são entregues ao cliente.
Mudanças no negócio, novos contratos, entrada em mercados diferentes, crescimento da equipe e ocorrência de incidentes podem exigir revisão dos controles.
A periodicidade deve considerar o tamanho e a exposição da empresa.
Pontos essenciais para iniciar a implementação
O programa deve começar por um diagnóstico
Antes de elaborar políticas, é necessário compreender riscos, exigências do cliente e controles existentes.
Os documentos precisam refletir procedimentos reais
Políticas que descrevem controles inexistentes podem gerar risco adicional para a própria empresa.
O porte da empresa influencia a complexidade necessária
O programa de integridade deve ser proporcional, sem deixar de enfrentar os riscos efetivamente relevantes.
A exigência privada e a exigência legal precisam ser diferenciadas
Um cliente privado pode estabelecer requisitos contratuais próprios. Em contratos públicos, normas específicas podem prever parâmetros adicionais.
Conclusão
Quando um cliente exige programa de integridade, o primeiro passo é entender a exigência e realizar um diagnóstico dos riscos e controles da empresa.
Um programa de integridade efetivo normalmente combina comprometimento da direção, políticas, análise de riscos, canal de denúncias, treinamento, diligência de terceiros, procedimentos de apuração e monitoramento.
A estrutura deve ser proporcional à organização e precisa funcionar na prática, não apenas existir para preencher um questionário de fornecedor.
Este conteúdo possui finalidade informativa e não substitui a análise das exigências contratuais do cliente, da atividade e dos riscos específicos da empresa.
Conteúdo publicado em: 21/10/2026
Autoria técnica: Rafael Favaretto Araújo Abreu, advogado – OAB/MG 168.999
Revisão jurídica: Equipe jurídica do Favaretto Araújo Abreu Advogados